Viradouro, Vila e Portela se destacam na 2º noite de desfiles na Sapucaí

Viradouro, Vila e Portela se destacam na 2º noite de desfiles na Sapucaí
Desfilaram ainda Mocidade, Mangueira e Tuiuti - Fotos: Rio Carnaval/Divulgação

Por Luis Leite e Angélica Zago

Segunda e última noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval carioca, foi marcado por homenagens a personalidades do samba e da história negra do Brasil, além das questões raciais. Viradouro, Portela e Vila Isabel foram os principais destaques. Passaram também pela Sapucaí: Mocidade, Mangueira e Tuiuti.

A Mocidade Independente de Padre Miguel foi a primeira escola a desfilar e trouxe como enredo “Pede caju que dou… Pé de caju que dá!” sobre a fruta do cajueiro; revelando histórias, lendas e curiosidade do povo brasileiro.

Um dos principais destaques foi a inusitada comissão de frente, quando uma de suas dançarinas surgiu de surpresa no meio do público das arquibancadas, vestida de Carmem Miranda. O grupo simulou a reverência do caju como símbolo do Brasil, tomando o lugar da banana.

Embalado pelo samba-enredo mais aclamado do ano, com letras de duplo sentido e fácil compreensão, a Estrela Guia da Zona Oeste realizou um desfile com visual leve, irreverente e de cores vibrantes.

A Verde e Branco enfrentou dificuldade para retirada do seu abre-alas na área de dispersão. Integrantes da agremiação não conseguiram desacoplar a alegoria, com isso, a ferragem de engate teve que ser cortada na motosserra. Por esse motivo, algumas alas ficaram paradas durante muito tempo na avenida prejudicando a evolução. No fim, precisou acelerar o passo para não estourar os 70 minutos.

Estreando à frente da “Não Existe mais Quente”, Fabíola de Andrade, esposa de Rogério, patrono da escola, distribuiu calcinhas e sutiãs para mulheres no setor 1 do Sambódromo. A beldade representou a indígena Cunhã-Poranga Jacira.

A bateria de mestre Dudu deu um verdadeiro show ao promover paradões no refrão principal do samba fazendo o canto ecoar na voz do povo. Entre as diversas celebridades desfilaram o humorista Marcelo Adnet, a atriz Regina Casé e a cantora Jojo Todynho.

Um defeito de cor foi o tema da Portela, destacando a força da mulher negra e a importância do afeto e da ancestralidade feminina baseado no romance da escritora Ana Maria Gonçalves, refazendo os caminhos imaginados da história de Luíza Mahim e seu filho líder abolicionista Luiz Gama.

A Azul e Branca de Oswaldo Cruz fez uma belíssima e emocionante apresentação, além de contar bem o enredo, levou para avenida várias personalidades afrodescendentes, entre eles o ministro da Igualdade Racial, Silvio de Almeida, atriz Taís Araújo, ator Lázaro Ramos, humorista Paulo Vieira e a musa Sheron Menezzes.

Dividido em três chassis, o abre-alas que trazia a tradicional águia em tons de palha, apresentou problemas na concentração e entrou na avenida desacoplado com algumas de suas esculturas danificadas, parte delas foram deixadas pelo caminho. Já o segundo carro passou com as luzes apagadas. 

Um dos momentos marcantes foi a última alegoria que trouxe 16 mães que perderam seus filhos para violência no Rio. Durante a passagem, todas elas exibiam camisas com fotos dos jovens em luta por justiça. Devido alguns contratempos, a escola conseguiu se sobressair sendo uma forte candidata a voltar no sábado das campeãs.

A rainha de bateria Bianca Monteiro também surpreendeu ao aparecer com o corpo pintado de preto e dourado, simbolizando a mãe Oxum.

Terceira a desfilar, a Unidos de Vila Isabel reeditou o enredo de 1993 “Gbalá — Viagem ao Templo da Criação”, inspirada na obra que narra as histórias da cultura yorubá desde a criação da Terra. A temática atual foi desenvolvida pelo carnavalesco Paulo Barros.

Com desfile tecnicamente impecável, a escola fez um alerta sobre a preservação do nosso planeta, devido às mazelas provocadas pelos humanos, assim como ao meio ambiente, ressaltando a importância das crianças na esperança de um futuro melhor, levando adiante os valores e ensinamentos dos orixás.

A comissão de frente focada nos pequenos, trouxe um elenco infantil composto por integrantes adultos representando a cura do mundo criado por Oxalá.

O primeiro casal Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas utilizaram 4 mil pixels de LED instalados na fantasia. Com efeitos de luzes a laser eles retratavam a desordem sobreposta pela humanidade. Em meio à apresentação, no entanto, a calça do mestre-sala não acendeu devido a um problema técnico.    

Quem também chamou a atenção, foi o carro alegórico que reproduzia a anatomia do corpo humano, constituindo a criação do homem.

Aclamada pelo público, a rainha de bateria Sabrina Sato usou uma fantasia inspirada na corrente sanguínea. Já a Swingueira de Noel pulsou forte mantendo o andamento bem cadenciado do início ao fim.

Martinho da Vila, auto do samba-enredo e presidente de honra da Azul e Branco, desfilou na última alegoria simbolizando o grande sacerdote. Ele completou 86 anos nesta segunda-feira com direito a “Parabéns a Você” durante o esquenta na Sapucaí.

Completando 50 anos de carreira em 2024, Alcione, ícone da MPB, foi a grande homenageada pela Estação Primeira de Mangueira sob o enredo “A negra voz do amanhã”, assinado pelos carnavalescos Annik Salmon e Guilherme Estevão. A história da cantora foi contada desde sua infância no Maranhão, até a construção artística no Rio de Janeiro.

O desfile começou com um tom religioso, trazendo um altar e a fé da Marrom, passando pelos os festejos de sua terra natal e as manifestações culturais como o Bumba meu Boi e o Tambor de Crioula.

A comissão de frente, retratou diversas fases da vida da artista na carreira musical. Um dos efeitos impressionantes fez com que os dançarinos trompetistas em cima de um tripé estivessem flutuando na avenida. Eles tinham os sapatos presos em uma base giratória, permitindo a inclinação do corpo sem cair.  No final da coreografia, crianças da Mangueira do Amanhã, versão mirim fundada pela cantora, também teve destaque no elenco.

A harmonia foi um dos pontos altos, com samba valente cantando a plenos pulmões por todos seus componentes. Quanto à parte estética, a Verde e Rosa apresentou fantasias simples, leves e coloridas de fácil leitura, porém no conjunto alegórico algumas perceptíveis falhas de acabamento.

A cabeça da escultura que representava Alcione na terceira alegoria quebrou antes de entrar na avenida e precisou ser segurada por um aderecista ao longo do desfile. Já na área de dispersão, uma mulher caiu do último carro e a outra ficou pendurada, após parte da estrutura se soltar. As duas foram socorridas e encaminhadas para o hospital.

Quinta e penúltima a entrar na avenida, a Paraíso do Tuiuti trouxe como enredo “Glória ao Almirante Negro”, inspirado na vida e história de João Cândido Felisberto, que se destacou no movimento de militares da Marinha contra castigos físicos sofridos dentro de navios, que persistiam mesmo após o fim da escravidão. 

A escola apresentou o personagem em diferentes fases, passando pela infância, pela ascensão como marinheiro e pela traição. João Cândido liderou a chamada Revolta da Chibata, expressão da insatisfação dos marinheiros com as condições de trabalho, maus-tratos e pagamento vergonhoso.

A revolta alcançou sucesso, mas o presidente não cumpriu o acordo, respondendo com prisões e exílios. João Cândido foi considerado louco. Com a sua história, a Tuiuti destacou a luta contra injustiças.

O último carro da escola foi decorado com bandeiras com títulos de ocorrências recentes de racismo contra homens negros. Em uma delas, estava o caso que vitimou João Alberto Silveira em um hipermercado em Porto Alegre em 2020.

Um dos destaques do desfile foi o entregador Max Ângelo dos Santos, que foi vítima de xingamentos racistas e foi agredido por uma mulher no Rio de Janeiro, em 2023. Ele foi convidado pela escola para representar o protagonista do enredo.

Atual vice-campeã do Carnaval do Rio, a Unidos do Viradouro foi a responsável por fechar os desfiles do Grupo Especial neste ano. O enredo da escola se baseou nas crenças voduns (nome utilizado para divindades ou forças invisíveis do mundo espiritual) dos povos africanos que viviam na Costa da Mina, região onde hoje localizam-se Gana, Togo, Benim e Nigéria. O enredo levou o nome de Arroboboi, Dangbé!, em referência à serpente sagrada que engole a própria cauda para dar equilíbrio.

Aliás, um dos destaques foi, na comissão de frente, uma enorme serpente que surgia entre o balé e deslizava pela avenida. O terceiro carro da agremiação representava proteção mística e lealdade e foi feito com ferro-velho.

O florescente também chamou a atenção no desfile. Foram utilizados 200 metros dos chamados olhos de gato, que refletem a luz e são comuns em placas e uniformes de garis. 

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