Vila Isabel, Salgueiro e Unidos da Tijuca definem sambas para o Carnaval 2027

Vila Isabel, Salgueiro e Unidos da Tijuca definem sambas para o Carnaval 2027
Trio de compositores vence disputa no Salgueiro e na Tijuca na mesma noite

Por Luis Leite

Durante o fim de semana, mais três escolas do Grupo Especial realizaram em suas quadras, as disputas que definiram os sambas-enredo que levarão para a Marquês de Sapucaí no ano que vem. A Unidos de Vila Isabel escolheu seu hino na sexta-feira (11), assim como o Acadêmicos do Salgueiro e Unidos da Tijuca anunciaram os vencedores na madrugada de domingo (13).

Na Unidos de Vila Isabel, a direção optou por unir as duas obras finalistas. A parceria vencedora reúne Paulo César Feital, Gustavinho Oliveira, Thales Nunes, Danilo Garcia, Júlio Alves, Marcelo Martins, Gabriel Simões, Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz.

Em 2027, a azul e branca será a quarta escola a desfilar no domingo de Carnaval, em 7 de fevereiro, com o enredo “Torto Arado – Sobre a Terra Há de Viver Sempre o Mais Forte”. Inspirado no romance de Itamar Vieira Junior, desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, em parceria com o pesquisador Vinicius Natal.

A narrativa retrata a vida das irmãs Bibiana e Belonísia, descendentes de trabalhadores rurais na Chapada Diamantina (Bahia), explorando temas como ancestralidade, laços familiares e a religiosidade do Jarê.

A rainha de bateria Sabrina Sato também participou da festa. Grávida, ela exibiu a barriga já avançada e mostrou que continua em plena forma no samba no pé. Na ocasião, a apresentadora foi anunciada como tema do enredo da Herdeiros da Vila.

No Acadêmicos do Salgueiro, a composição vencedora é assinada por Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão. O resultado foi divulgado por volta das 5h.

A vermelho e branco levará para a Avenida o enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”, desenvolvido pelo carnavalesco Leonardo Antan. A proposta faz uma releitura desconstruindo caricaturas e exibindo a memória de Xica a partir de documentos inéditos, incluindo seu próprio testamento.

O trama destacará a força da mulher negra, a ancestralidade, a resistência e o protagonismo feminino.

Antes da disputa, o Elenco Show da Academia, coreografado por Carlinhos do Salgueiro, relembrou a trajetória da personagem homenageada e suas diferentes representações na cultura brasileira, dos carnavais ao cinema e à televisão.

O espetáculo musical também contou com a participação da Bateria Furiosa, comandada pelos mestres Guilherme e Gustavo, dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, passistas, baianas, musas e integrantes da velha guarda, além dos clássicos do Torrão Amado interpretados por Igor Sorriso.

Conhecida como a “Rainha das Rainhas”, Viviane Araújo encantou o público ao tocar tamborim em perfeita sintonia com os ritmistas, e ainda encabeçou o momento especial distribuindo rosas vermelhas na quadra.

Na Unidos da Tijuca, a parceria campeã é formada por Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos. O trio conquista o título logo em sua estreia na ala de compositores da escola do Borel.

O samba será a trilha sonora do enredo “A Cabeça do Santo”, baseado no livro homônimo da escritora Socorro Acioli e desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato.

A história fala sobre uma cabeça gigante de Santo Antônio, que virou ponto turístico e de preces, no sertão do Ceará.

Ian Ruas celebrou a conquista e afirmou que decidiu participar da disputa devido às novas regras democráticas e por não ter poderio financeiro.

“Tenho um comportamento um pouco diferente dos outros compositores. Não participo de escritório e faço samba como uma homenagem ao meu pai, que era compositor e faleceu. Sempre trabalhei com música, sou produtor musical e vivi metade da minha vida fora do país. Quando voltei, comecei a compor. Minha motivação veio da inspiração que encontrei no enredo. É uma história carregada de afeto, sentimento e emoção, permeada pelo universo nordestino. Escrevi o samba de um dia para o outro, me conectei muito com ele e resolvi participar da disputa. O fator determinante foi a nova regra do concurso, porque eu não teria estrutura para disputar em igualdade de condições com grandes compositores. Como a Tijuca democratizou o concurso, viabilizou a minha participação.

Quero agradecer por analisarem minha obra com o mesmo carinho dedicado às dos compositores da casa. Sei que sou um compositor novo e estou chegando a um lugar por onde já passaram grandes nomes. Respeito profundamente a trajetória de todos e espero, de coração, que toda a arte e o carinho que coloquei nesse samba tragam felicidade para a comunidade, os segmentos e para a escola que me acolheu tão bem”, declarou Ian, emocionado.

Durante o evento, a agremiação também apresentou seu novo primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. Marcinho Siqueira e Cris Caldas assumem oficialmente os postos para o Carnaval de 2027.

Confira abaixo as letras e os áudios dos sambas vencedores:

Salgueiro

Arreda, homem, que essa preta vai girar
Meu tambor vai ecoar em resistência!
Evoco as divas, as Marias, as baianas
Depravadas, puritanas, pra clamar nossa insolência!
Exu comanda esse terreiro
Eis aqui o verdadeiro nome de Sinhá


Francisca, mãe da encruzilhada, rosa indomada, deusa da rua!
Na procissão da academia, negra fidalguia se perpetua
Incorporei no atabaque do meu torrão
Festa de ostentação ao poder da negritude
Dilacerei as vestes da servidão
Meu corpo foi invasão, fetiche da branquitude!


Nas lentes de outros olhos
O foco na nossa verdade é menor
Tal qual a trama da atriz
Que encenou, de uma vida, um capítulo só
Eu, que já fui outras Xicas, refaço o roteiro, no chão que me fez triunfar


Gira, desce o morro meu Salgueiro, meu quilombo pioneiro, renasci nesse gongá!
Firma axé na segunda-feira, é macumba a noite inteira, saravá, alafiá


Mãe, guardiã, fruto do afã
De um ventre escravo e um nobre senhor
Matriz, mecena de toda arte, que leva em seu estandarte, a simples audácia do amor
Louvai, Brasil! A filha de Òrun despertou!


Laroyê! Xica da Silva!
Laroyê! Ê Mojubá!
Toda mulher tem direito à própria história
Meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar

Unidos da Tijuca

Mainha, do céu, vem me abençoar
Mainha, me guarda em teu colo
A luz da saudade vagueia no olhar
No brejo, a casinha, o sereno
Memórias que o tempo não pode apagar
A fé que deixaste a mim, acalma minha solidão
Ainda que o medo machuque meu coração
Delírios plantados em terra rachada florescem
Num rastro de dor

Será que a estrada esconde o segredo do amor?
Será que a estrada revela o segredo do amor?

Vá de retro Belzebu, não me venha assombrar
Padim Ciço me proteja, São Francisco vai curar
Nas veredas da ilusão, sertão já virou mar
Quem cultiva caridade, caridade vai achar

Ê, batuque em terreiro de arraiá!
Gingado, balão, festim, panela de mungunzá
Abre a roda que o cabra incorporou
Cabeça do santo herdei, cabeça do santo sou!

Preces de nativas em cortejo
Vozes de esperança e devoção
Guiado pelo fogo do desejo
Ofereço minhas bênçãos à mais pura adoração

Ô Toinho, meu pai, peço perdão!
Ô Toinho, meu pai pede perdão!

Tijuca, ao lume do teu candeeiro,
O sonho de um simples vaqueiro, que mãe batizou Samuel
Tijuca, milagre encontrei em Rosário
No Rio, em teu santuário,
Meu Juazeiro é o chão do Borel!

Em terra de fé, brotou
O fruto da oração
Traz viola, meu sinhô, a sanfona anunciou
Tem festança no sertão
(Vem sambar no meu baião)

Gostou na matéria? Dê o seu comentário.