Três escolas definem sambas para 2026: Vila Isabel, Tijuca e Unidos de Padre Miguel
Vila Isabel e Unidos da Tijuca abrem a temporada das escolhas de sambas da elite do carnaval carioca
Por Luis Leite
O fim de semana foi de festa em duas escolas do Grupo Especial e uma da Série Ouro, que definiram os seus respectivos sambas-enredo para o Carnaval 2026. Com as quadras lotadas, a Vila Isabel escolheu na sexta-feira (12), enquanto Tijuca e Unidos de Padre Miguel realizaram suas finais no sábado (13).
Na Unidos de Vila Isabel, uma decisão inédita e histórica consagrou a obra de André Diniz e Evandro Bocão. Aclamado desde o início das eliminatórias, o hino oficial foi decidido pela ala de compositores em conjunto com a diretoria. Por isso, na grande final, não houve apresentações dos concorrentes no palco.
O poeta André Diniz alcança à sua 20ª vitória, superando nomes como Martinho da Vila e Paulo Brazão, enquanto Evandro Bocão fatura pela 12ª vez.
Entre os clássicos da dupla estão:
- “Muito Prazer! Isabel de Bragança e Drumond Rosa da Silva, Mas Pode Me Chamar de Vila” (1994)
- “Você Semba lá… Que eu Sambo Cá! O Canto Livre de Angola” (2012)
- “A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo – Água no Feijão que Chegou Mais Um” (2013)
Para deixar a noite ainda mais especial, o público contou com os shows do grupo Clareou e de todos os segmentos da agremiação, além das canções inesquecíveis na voz do intérprete Tinga.

Durante o evento, a escola anunciou suas novas musas da comunidade: Yasmin Lima, Juliana Moraes e Ciça Ferreira. Emocionada, Juliana destacou: “É um sentimento de amor, pertencimento e representatividade dentro da minha narrativa como mulher preta, estudante, pedagoga, mãe solo e mãe atípica. Eu trago toda essa força, resiliência e amor ao samba e à Vila Isabel.”

Com muito carisma e sintonia com os ritmistas, Sabrina Sato caiu no samba. A Japa usou um figurino ousado que exaltava sua boa forma.
No próximo ano, a Azul e Branca do Bairro de Noel desfilará na terça-feira, 17 de fevereiro, com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, com pesquisa de Vinicius Natal. O tema celebra a memória do pintor e compositor Heitor dos Prazeres (1898-1966).

Na Unidos da Tijuca, elegeu a parceria de Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca.
Antes da apresentação dos três sambas finalistas, a escola promoveu um grande espetáculo com todo o seu elenco.
A Amarelo-Ouro e Azul-Pavão do Morro do Borel levará para a Sapucaí um enredo sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, autora de uma das obras mais revolucionárias e impactantes da literatura brasileira. A temática está sendo desenvolvida pelo carnavalesco Edson Pereira.

Outro momento marcante foi a cerimônia de coroação da nova rainha de bateria, Mileide Mihaile, que reinará à frente dos ritmistas da Pura Cadência, comandados por mestre Casagrande. Substituindo Lexa, a influenciadora digital mostrou muito samba no pé.

Série Ouro
Já na Unidos de Padre Miguel, o samba campeão leva as assinaturas de Thiago Vaz, Jefinho Rodrigues, W. Correa, Richard Valença, Miguel Dibo e Cabeça do Ajax.
O resultado foi anunciado pela presidente Lara Mara por volta das 6h deste domingo, seguindo a comemoração pela rua Mesquita, onde a quadra fica situada.
Com o enredo “Kunhã eté – O sopro sagrado da Jurema“, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, o Boi Vermelho e Branco da Zona Oeste propõe uma imersão na trajetória da guerreira indígena Clara Camarão, símbolo de coragem, liderança e resistência feminina no Brasil colonial.
Segue abaixo as letras dos sambas vencedores:
Vila Isabel
Sonhei macumbembê, sonho samborembá
Macumba é samba, e o samba é macumba
Pode até fazer quizumba
Só não pode é separar
Sonho samborembá, macumbembê
Vem da mãe terra, firmou ponto na Bahia
E na África pequena germinou pra florescer
Éh quilombo, é a Pedra do Sal
Arraigou em terreiro e quintal
No chão batido assentou o fundamento
Foi o lino de madrinha
De padrinho, espelhamento
Flutuou na capoeira ao perfume de Ciata
Negro príncipe de ouro, o anjo de asas de prata
Um ogan alabê, macumbeiro
À fumaça do cachimbo, preto velho soprou
Encanto da gira, da roda de bamba
Poesia da curimba, batuqueiro e cantador
Foi do lundu e do cateterê
Alinhou de linho santo, cavaquinho na mão
Apaixonado pierrot afro-rei
A flecha certeira de Oxóssi na canção
Reluz nas escolas, em Noel e Cartola
Ganhou o mundo, com o mundo de Paulo Brasão
De todos os tons, a Vila, negra é!
De todos os sons, a negra Vila é!
De china e ferreira
Mocambo macacos e o pau da bandeira
Da nossa favela, branca a azul do céu
No branco da tela o azul do pincel
Vem ser aquarela, pintar a Unidos de Vila Isabel
Oraieiê Oxum, kabecilê Xangô
Meus sonhos e tambores, tintas e Prazeres
Pra você, Heitor
Unidos da Tijuca
Eu sou filha de uma dor
Que nasceu no interior de uma saudade
Neta de vô preto velho
Que me ensinou os mistérios
Bitita, cor que sonhou liberdade
Me chamo Carolina de Jesus
Dele herdei também a cruz
Olhem em mim, eu tenho as marcas
Me impuseram sobreviver
Por ser livre nas palavras
Condenaram meu saber
Fui a caneta que não reproduziu
A sina da mulher preta no Brasil
Os olhos da fome eram os meus
Justiça dos homens não é maior que a de Deus!
Meu quarto foi despejo de agonia
A palavra é arma contra a tirania!
Sonhei sobre as páginas da vida
Ilusões tolhidas por um sistema algoz
Que tenta apagar nossa grandeza
Calar a realeza que ainda vive em nós
Meu barraco é de madeira
Barracões são do Borel
Onde nascem Carolinas
Não seremos mais os réus
Por tantas Marias
Que viram seus filhos crucificados
Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado…
Meu país nasceu com nome de mulher
Sou a liberdade… Mãe do Canindé!
Muda essa história, Tijuca
Tira do meu verso a força pra vencer!
Reconhece o seu lugar… e luta
Esse é o nosso jeito de escrever!
Unidos de Padre Miguel
Quem vem lá é a Unidos de Padre Miguel
A chama da ira terrena que evoca o sagrado do céu
Girando inicia o Toré, herança dos meus ancestrais
O passo marcado, nas mãos maracás
Virado no meu Juremá
Xamã revelou a missão
A mata é de Clara Camarão
Kunha Eté, sobrenome resistir
Sangue urucum as margens do Potengi
Mãe d’água (mãe d’água) desperta a fina flor
Poti, Potiguara em nome do amor
Quando ecoa o tambor, vibra a alma da floresta
Nesse solo de guerreiros, o corpo se manifesta
Firma o pé, empunha a lança, que a justiça vem a tona
A nossa tribo avisa:
Essa terra aqui tem dona!
Nativa, lidera mulheres em tantas batalhas
Muralha invisível que o tempo despiu
Brasil, na tua Jurema que habita o sacrário
Leão é invasor, Rei é o povo originário
Eh cabocla da pele morena
Tem doçura, tem encanto, no entanto não tem pena
Das águas sagradas aos seres de luz
Entrego o caminho a quem me conduz
É “clara” essa força que faz ir além
Incorporada no povo da Vila Vintém
Vai meu Boi Vermelho, honre a tua história
E seja a flecha viva da memória
Quantas vezes for preciso, haverá renascimento
Pra que a verdade não caia no esquecimento
