Portela, Mangueira e Mocidade escolhem sambas que levarão para a Avenida em 2027
Por Luis Leite
Com quadras lotadas, três escolas do Grupo Especial realizaram, durante o fim de semana prolongado, as escolhas dos sambas-enredo para o Carnaval 2027. A Portela abriu a maratona na noite de sexta-feira (4), enquanto, no sábado (5), foi a vez da Mangueira e da Mocidade.
Portela homenageia Monarco
Na Azul e Branca de Oswaldo Cruz e Madureira, venceu a parceria formada por Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Jefferson Oliveira, Hélio Porto, Orlando Ambrosio, W. Correa e Rafael Gigante. A trilha sonora defenderá o enredo “Ao Mestre, com Carinho“, desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Barros em tributo ao baluarte e portelense Monarco (1933-2021).
A disputa reuniu 36 canções inscritas por mais de 200 compositores. Com a vitória, Wanderley Monteiro chegou ao seu nono triunfo na escola, repetindo o sucesso alcançado nos carnavais de 2009, 2011, 2012, 2013, 2016, 2022, 2023 e 2024.
“Antes da final, eu disse que o coração ia sair pela boca. Agora, depois desse resultado, é difícil explicar o que estou sentindo. Monarco é o nosso mestre e uma referência para todos nós. Vencer um samba que vai contar a história dele e chegar à minha nona vitória na Portela é uma honra imensa. Esse resultado é de toda a parceria e da comunidade, que cantou com a gente até o fim”, celebra Wanderley Monteiro.
A final atraiu mais de 7 mil pessoas à quadra e contou ainda com exibição de imagens em um painel de led percorrendo momentos da vida do homenageado.
Na sequência, teve as apresentações da bateria Tabajara do Samba, comandada por Mestre Vitinho, da rainha Bianca Monteiro, dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, além de baianas, passistas, musas, cabrochas e integrantes da Velha Guarda.
Mocidade celebra integração cultural

Em Padre Miguel, a Mocidade Independente elegeu a composição assinada por PC Feital, Alex Saraiça, Denilson do Rozario, Andre Russo, Carlinho da Chácara e Fabio Bueno.
No ano que vem, a Verde e Branca embalará o enredo “Latinamente Independente“, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos. O tema tem inspiração na obra “América Invertida”, do artista uruguaio Joaquín Torres García.
A agremiação promoveu uma grande festa em sua quadra, na Avenida Brasil, com programação especial na área externa, reunindo apresentações de samba, rap, funk, música latina e gastronomia, além do show arrebatador dos demais segmentos da Estrela Guia no palco principal.

Um dos destaques da noite foi a rainha de bateria Gaby Mendes, que demonstrou total intimidade com a batucada ao desfilar tocando surdo durante a celebração. A beldade assumiu o posto recentemente, sucedendo Fabíola de Andrade.
Mangueira aposta na força de Oyá

Já na Estação Primeira de Mangueira, a disputa foi bastante acirrada entre as duas parcerias finalistas. Aclamada pela comunidade, sagrou-se campeã a obra de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Guilherme Sá, Rodrigo Bandolim e Orlando Ambrósio.
A cantora baiana Daniela Mercury foi pé-quente: ajudou a defender o samba eleito, que já vinha ganhando força entre torcedores e foliões dentro e fora da quadra ao longo da competição. Após o resultado de uma vitória histórica, a artista compartilhou a emoção nas redes sociais, agradecendo o carinho de toda a nação mangueirense.
Com o enredo “Oyá Por Nós”, desenvolvido pelo carnavalesco Sidnei França, a Verde e Rosa exaltará Iansã, entidade de matriz africana associada aos ventos, às tempestades e às poderosas energias de transformação.
Um dos pontos altos do evento foi a apresentação do Elenco Show temático, dirigida por Fábio Batista. O espetáculo reuniu diferentes segmentos da escola em uma encenação marcada por dança, ancestralidade afro-brasileira e referências aos orixás. A bateria Surdo Um, sob a regência dos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto, também protagonizou momentos de grande interação com o público.
Confira abaixo as letras e os áudios dos sambas vencedores:
Portela
E por falar de amor, dos que não vão terminar
Falar de Monarco, meus olhos vão marejar
A Velha Guarda teu sorriso na lembrança
Eu sou Portela desde os tempos de criança!
A bênção, meu velho
Chegou o momento sonhado
Prazer reviver seu legado
Tocar o passado de um tempo menino
Viver o encanto do mago Monarco
Solar no cavaco o seu belo destino
Usar panamá com a sua elegância
Vender nosso peixe com todo respeito
Pro nosso gosto, se o samba tem rosto
É o seu não tem jeito
Pra entender tem que ter um “A”
De amor, e um “quê”
De Madureira na alma
Tem que ter a luz
Carregar no peito Oswaldo Cruz
Agora uma enorme saudade devora
A simplicidade hoje mora
Na voz que me transmite a paz
Oh! Linda inspiração, é o samba em devoção
Os ensinamentos não morrerão jamais
Eu sou a sua eterna continuação
Peço a Deus e a Santa Conceição
Estendam o manto azul, que nos pertence
Ao mestre com carinho
A Águia do meu ninho
Vive em cada portelense
Mocidade
Toca o agueré, pra fazer revolução
Toca o agueré e respeita essa nação
O meu norte sempre foi, nossa pátria mãe gentil
Mocidade Independente do Brasil
Desperta, pioneira, no verde da bandeira
Odé Komorodé me empresta o seu ofá
É hora! Do hemisfério oprimido
Ter o mapa invertido pra Jurupari lutar
Choramos por tanto sangue derramado
Entre a fome do mercado e a fúria d’ambição
Pois eles são capatazes da alegria
Opressores da harmonia, carcereiros da ilusão
Latino, em tua alma matarás os soberanos de Alcatraz
Pero sí, perder la ternura jamás!
Eu sonhei com Obatalá e Tupã lá no Orum
Caetés na Casa Branca, a Colômbia e o Peru
Na soberania plena todos juntos somos um
Pindorama era o quilombo dos saberes de Ogum
Os sabores do amor têm punhados de alegria
Preparados no calor da rebeldia
Peço, ao norte não repita o amargor de tanta ausência,
No Brasil, meus companheiros são heróis da resistência
Atahualpa se uniu a Tupiara e gritaram fortemente
Não assalte as terras raras
Sou de Tupã com ascendente em Pachamama
No suor que se derrama e na dor que se escancara
Independente, eu sou desobediente,
Tenho molho e sangue quente
E não faço concessão
Tome tenência e sossegue logo o facho
Que meu filho vire o mundo de cabeça para baixo
Mangueira
“Quando toca o adaró
Somos tantas numa só, a nação evoca minha mãe Iansã!
Vira tempo, tempestade
Pra varrer toda maldade, sob os raios da manhã.
Ah! Eparrey
Meu povo é trovoada,
O tambor do recomeço,
Quando vira a encruzilhada…
Sou rebeldia de Oluafefé,
Pele de búfalo no corpo de mulher!
Afulelé adê ô, deixa incorporar
Olonifé de Ogum, forja pra lutar
Paixão que atiça, fogo de Akará!
No coração de Xangô deixa ela girar!
Iyá mesan orun…
Treme-terra…
Desce o morro, sobe o rum… é guerra!
Bate o oguê, que o sangue tem dendê,
Tá pra nascer quem manda nela!
Ela dança no ilê axé,
Dá caminho no axexê,
Faz do seu furacão, balé,
Dona do ajerê
Meu ori, tua coragem, liberdade obirín
Porque não existe macho que levante a mão pra mim!
É que eu sou preta, macumbeira e de Oyá
Sou ventania que ninguém pode afrontar
Colo de Ketu, solo do gueto, força de Orixá.
Quem tem fé na quarta-feira sabe que eu não ando só.
O Brasil da intolerância eu despacho no ebó
Nada fica no caminho, a rainha vai passar,
Segura que o xirê vai começar!
Oyá Tetê Oyá Tetê Oyá
Oyá Tetê Oyá Mangueira Yabá!
Ê mamãe, traz de novo teu axé…
Relampejou pra vitória..
Motumba Lè!”
