Imperatriz, União de Maricá, Viradouro e Grande Rio escolhem sambas para 2027

Imperatriz, União de Maricá, Viradouro e Grande Rio escolhem sambas para 2027
Últimas quatro agremiações do Grupo Especial encerraram a temporada das disputas - Foto: Nelson Malfacini/Divulgação

Por Luis Leite

O fim de semana foi de festa e decisão nas quadras de mais quatro escolas do Grupo Especial que escolheram oficialmente os sambas para o Carnaval de 2027: Imperatriz Leopoldinense e União de Maricá, na sexta-feira (18); no sábado (19), foi a vez da Unidos do Viradouro. Já no domingo (20), a Acadêmicos do Grande Rio encerrou a maratona das disputas.

Na Imperatriz, foi definida a parceria de Me Leva, Thiago Meiners, Gabriel Coelho, Herval Neto, Bernardo Nobre e Guilherme Macedo. O resultado saiu por volta das 5h30 da manhã.

A Verde e Branco da Leopoldina levará para a Marquês de Sapucaí no ano que vem, o enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira. A proposta do tema é mergulhar no universo do maracatu, manifestação cultural tradicional de Pernambuco. A narrativa reúne elementos de memória, religiosidade, ancestralidade e tradição ligados à manifestação.

Ao destacar a força do samba escolhido, a presidente Catia Drumond afirmou que o trabalho será ainda mais eficaz.

“Mais um momento espetacular. Foram 27 sambas participantes, uma safra muito bem avaliada pelos sambistas, pela crítica, até chegarmos aos três finalistas e ao grande resultado.

E agora, temos um samba à altura da força de nosso enredo, para fechar a segunda-feira embalados por Dona Júlia. Só tenho a agradecer aos compositores, à minha equipe, à minha família e a todos os presentes na nossa final. O trabalho só para agora, depois do desfile. E a minha comunidade pode ter certeza: a Imperatriz vem para buscar esse campeonato”, finalizou.

Durante a festa, a Rainha de Ramos promoveu um grande espetáculo com a exibição de diversos segmentos, idealizado pelo diretor artístico Felipe Nascimento.

Na Região dos Lagos, a União de Maricá, estreante no grupo da elite da folia carioca, elegeu a composição assinada por Moacyr Luz, Rafael Gigante, Wanderley Monteiro, Babby do Cavaco, Vinicius Ferreira, Marcelinho Moreira, Jefferson Oliveira e Hélio Porto. Ao todo, foram 12 composições inscritas, que passou por diferentes etapas até chegar à grande final.

“Hoje demos mais um passo importante dentro do nosso cronograma do carnaval. Tenho certeza que esse samba vai representar perfeitamente a nossa comunidade maricaense na Sapucaí”, afirmou o presidente, Matheus Santos.

O hino escolhido vai embalar o enredo “Utopia Brasil: Darcy Ribeiro”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira. O projeto abordará a trajetória, as ideias e o legado do antropólogo, educador e defensor dos povos originários, a partir de uma narrativa que propõe refletir sobre o Brasil sonhado pelo intelectual.

A programação contou com apresentações da bateria, passistas, baianas, musas e dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, além de um show de abertura do cantor Yan.

Um dos momentos mais impactantes da noite ocorreu quando um drone cruzou o espaço carregando o pavilhão da escola. Em seguida, a bandeira foi entregue às mãos de uma baiana da comissão de frente. A cena uniu modernidade e ancestralidade.

Em Niterói, a Unidos do Viradouro, atual campeã, consagrou a letra da parceria de Mocotó, Paulo César Feital, Inácio Rios, Igor Federal, Deja, Romério Duarte, André Quintanilha, Chanel, Ronilson Fernandes e Márcio André Filho.

Após vencer sete disputas consecutivas entre 1996 e 2002, o compositor Mocotó chega ao seu oitavo triunfo na escola. Já o poeta PC Feital conquista sua quarta vitória.

No próximo ano, a vermelha e branco levará à Avenida o enredo “Griô”, que aborda a tradição dos contadores de histórias de populações da África Ocidental e a força da oralidade na preservação e transmissão da memória e dos saberes entre gerações.

Antes dos sambas concorrentes, a agremiação brindou o público com um megashow acompanhado da bateria Furacão, sob a regência de mestre Ciça, e a performance impecável da rainha Belinha Delfim. O evento ainda contou com inúmeros clássicos inesquecíveis conduzidos pelo intérprete Wander Pires.

Já na Grande Rio, a parceria formada pelos compositores Deré, Licinho Junior, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro, Igor Federal e Gustavo Clarão venceu a disputa de samba realizada na quadra da escola – que ficou completamente lotada – em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Derê alcança sua décima primeira estrela na Tricolor, consolidando um marco histórico em sua trajetória.

A obra campeã será a trilha sonora do enredo “Sankofa Tabon – Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”, assinado e desenvolvido pelo carnavalesco Antônio Gonzaga. A narrativa é sobre os africanos escravizados que, após conquistarem a liberdade no Brasil, retornaram ao continente africano e se estabeleceram na Costa do Ouro, atual Gana.

A noite também foi marcada pela coroação de Anitta como nova rainha de bateria da agremiação. Ovacionada pela comunidade, a cantora recebeu a coroa das mãos de Eloína dos Leopardos, a primeira mulher trans a reinar à frente dos ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis, em 1976, 1977 e 1978. Ela assume o posto que foi ocupado pela influenciadora Virginia Fonseca, que anunciou sua saída em agosto.

A cerimônia teve ainda uma encenação sobre a carreira da artista, com a participação de personagens representando orixás.

Mesmo com o “reves”, Anitta compôs uma das canções finalistas ao lado de Igor Leal, Arlindinho, Fred Camacho, Fabian Juarez e Diego Nicolau.

Segue abaixo as letras e os áudios dos sambas vencedores:

Imperatriz

É baque virado do congo, cortejo de coroação
Essa loa traz mistérios de uma história feita à mão

Desde o tempo que ouro é marfim
A nobreza nasceu em mim
E desfila o seu esplendor
Lá no Recife quando a corte invade a rua
Abre caminho para falar de Dona Júlia
Dona Santa subiu pro orun, a calunga incorporou
Tem mistério a mandinga que seu filho assentou

Ô babá… na imbuia, o egun da rainha
Epa babá…. Na madeira, o ori de Oxalá

Ao partir seu pai de santo foi guardada em desencanto
Onde a vida vira conto, quem sumiu, se fez achar
Nas tradições do xambá, retorna seu ilê
E o ritual vai novamente começar

É galinha d´angola, farinha, é sangue no couro
Sassanha pra folha de boldo
Copo d´água, fumaça e acaçá
Foram três dias de resguardo no roncó
Feitiço que corta nó pra boneca reencantar

Dama do paço levou pro baque das ondas
Partiu do pina um cortejo a desfilar
E num silêncio que tudo dizia
Os tambores cantariam por quem foi, mas vai voltar

Meia noite, meia noite… Eu vi a terra tremer
Senhora dá passagem pro povo do orun descer
(senhora dá passagem pro povo descer pro ayê)

Oyá oyá… Ê lari ô oyá balé
Oyá oyá… Ê lari ô oyá balé
Que meu ogã evoque um ponto de macumba
Pra ganhar a rua a imperatriz do candomblé

União de Maricá

Desperta pra sonhar, menino
Na janela do Divino já raiou sua missão
Quando o Império é desatino
Utopia no destino cai na indignação
Do sacrário verde, fez morada sob o céu
Um quase originário, Kaapor e Kadiwéu
Atrevido pensamento
Contra o aprisionamento
No exílio opressor
Sua arma foi o livro
Permanece ainda vivo
Livre em cada educador

Ergue a Zambi um monumento
Nessa praça um fazimento
Coroando Rei Zumbi (Rei Zumbi)
Ao cortejo quilombola
Onde o samba faz escola
Avenida de Darcy

Boêmio, sedutor, é luz na cegueira
Um brinde aos amigos de luta e trincheira
Se é perfeita a forma mais concreta
Integral, nada discreta, a esperança nos mantém
Vida, universidade, pra afastar toda
Maldade de moer gente de bem!
Pra gente ser feliz, reforma o tal
Progresso
Fracasso é um sucesso quando fala o
Coração
Tantas peles eu vesti…
Pra que todo favelado vá sonhar como
Darcy

Meu país é Maricá, utopia mãe gentil
Nunca pare de lutar pra mudar esse Brasil
A vitória popular nessa pátria tão hostil
É educar um filho da mãe solo que pariu!

Viradouro

Agô bate palma de macumba
Pra saudar dono da rua
Vira o corpo no terreiro
Ventre que moldou o fundamento
E o véu rodeia o tempo esse velho feiticeiro

Quando ananse bordou os fios de prata
Colocou na cabaça o dom do saber
O tom da palavra, a força e o poder
Do igbá que se quebrou
Pelo mundo espalhou
Na voz das mandingas se fez poesia
Lindas melodias e cantos de amor

Eu fui griô a luz de um (num) baobá
Contando histórias de emocionar
Em volta dele mais de mil crianças
A cantar lembranças ao som do korá

Lágrimas
Caem pelo mar do esquecimento
Ritual opressor
África
Tradução de todo ensinamento
Carrego na minha cor
Verbo eternizado
É alvo acertado contra a maldade
Sagrado é guardar os segredos
Pro mundo saber
Dança de jongo embala meu ponto
Tambor de congo faz acender
Outros enredos que um dia terão de nascer
Samba escola viva entidade
Arquivo da memória preta

Grito à ancestralidade
Ẹ káale! Ẹ káale! Ô
Ziri ziri namu, kouyaté
Ẹ káale! Ẹ káale! Ô
A viradouro é sangue de griô

Grande Rio

Sankofa!
Em suas asas vou buscar minhas raízes
A travessia não apaga cicatrizes
Eu sou história, ouro de mãe, negro ancestral

Ave sagrada!
Ainda me lembro do navio agourento
A dor do meu primeiro atravessamento
Venci o drama, eu sou a trama atemporal

Retorno no caminho das marés no entorno…
Outro sentido, outro viés
Será… que levo a luta dos Malês, será?
Será… que é tudo que se fez pra libertar?
O povo preto nesta terra que me adotou
Um sol à frente, bordado “kente”
Ekome Feemo!!

Meu olhar marejou, mareia
No encontro que Nyame abençoou
O clarão da velha lua cheia
Na pedreira do meu pai Xangô

No brilho do povo Akan, Adinkra simbologia
Conheço da gente irmã, sabor e sabedoria
Tabon eu me sinto em casa
Tabon eu vim pra ficar
O amor acendeu a brasa
Com asas eu quis voar
Liberdade ao som do agbê
Liberdade nos palmos deste chão
Meus filhos irão erguer o tempo de reparação
Meus filhos irão erguer um país com a gana
Da força africana e chamar de nação

Ô, estrela! Estrela de toda negrura
Na bandeira, a Grande Rio
Traz de Gana a bravura!

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