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O samba do sistema

Publicado em Artigos
Quarta, 16 Novembro 2016 21:16

Por Aloisio Villar

Eu escrevi alguns anos atrás em um site de política onde era colunista que as escolas de samba sempre foram reflexo da sociedade e do momento em que vivíamos. No tempo mais ufanista, nacionalista da Era Vargas surgiram com enredos nacionais, ufanistas. Nos tempos da ditadura tiveram que se virar como podiam. Beija-Flor exaltou no começo o feito dos militares e depois vendo que era furada falou do carioquíssimo jogo do bicho, o Império teve rasantes de caças durante seu "Heróis da liberdade" por acharem enredo e samba subversivos. Por coincidência ou não o autor do samba Silas de Oliveira nunca mais foi vencedor.

Nos anos 80 veio a abertura democrática e as escolas de samba se tornaram voz de um povo sofrido e cansado de tantos desmandos e corrupção. Tornaram-se críticas, inconformadas. Algumas como a Caprichosos se tornaram expoentes da crítica debochada como "Quem comeu, comeu, quem não comeu não come mais, Brasil com Z jamais" ou a crítica mais séria como a São Clemente "Pequenino, triste feito cão sem dono, cansado de sofrer por aí perambulando".

Não por acaso foi uma das fases mais ricas da história das escolas de samba. De maior vendagem de discos e sambas mais populares.

O Brasil dessa segunda década do século XXI era um país antiquado, retrógrado, careta, politicamente correto. Eu digo era porque a coisa está piorando. Cada vez mais é um país formado por zumbis que só sabem repetir propagandas oficiais, cada vez mais adeptos do "sim senhor" e que não sabe pensar fora da caixinha. O Brasil é um país que se rendeu ao sistema.

Uma época em que numa final de escola de samba aquela que é uma das mais vanguardistas que temos, a diferente, a que fala de todos os temas sem medo e vem para 2017 com um samba sacana, safado com picardia declara apoio ao candidato do conservadorismo, daquilo que é o contrário de tudo que ela sempre representou.

Claro que estou falando do Salgueiro, uma das nossas maiores representações culturais e das mais cariocas. A declaração de apoio rendeu vaias até inesperadas na quadra mostrado que nem todo mundo pensa igual. Mas não dá para jogar nas costas do Salgueiro a "culpa" pelo samba ser assim hoje porque o samba inteiro está assim e pensa assim.

O mundo do samba hoje segue a cartilha do "sim senhor", esqueceu como se protesta, como se critica, debocha passando a impressão que está tudo bem e o país maravilhoso. Escola de samba hoje só se lembra de reclamar, de protestar quando a TV não faz o que ela quer ou valor da subvenção. Enfim, o samba virou o brasileiro comum que se desinteressa pelo bem coletivo e só pensa no seu.  

Samba hoje é habitué de gabinetes. Vive lado a lado com poderosos que fingem gostar dele, mas só aturam porque sabem mais que o próprio samba o que ele ainda representa. O samba é o novo rico que faz de tudo para ser aceito, até abraçar candidatura de um grupo que sempre lhe atacou, por quem nunca lhe deu valor e esquece daqueles que sempre estiveram do seu lado.

O samba há muito não é mais a voz do povo, da comunidade. Andam em caminhos divergentes e assim perde cada vez mais espaço. O samba está sem pátria, sem solo, sem povo. Seu povo se volta para o funk que mesmo com todos os defeitos ainda consegue ouvir a voz da sua gente e fazer essa voz ser ouvida. O samba puxa o saco dos governantes e os mesmos governantes não foram capazes até hoje de fazer a Cidade do Samba II ou salvar a quadra da São Clemente.

Acham que são queridos e amigos do sistema só porque prefeito bota chapéu panamá, se diz portelense e se mete no meio da bateria. Interesses, tudo jogo de interesses, só que na hora ruim um lado entrará com o pé e outro com a bunda. O pé nunca é do samba.

Provavelmente o candidato que o samba apoia será eleito. Vamos ver se ele vai cuidar do samba mesmo, se vai trair aqueles que lhe dão sustentação. Cantar "Pega no ganzê" é mole, quero ver o novo prefeito cantar o samba todo do Salgueiro 2017 "do jeito que o pecado gosta". Aliás, ele aprender que não se fala mais primeiro e segundo grupo já será um avanço. 

Quem é muito subserviente uma hora não serve mais. 

Twitter - @aloisiovillar 

Facebook - Aloisio Villar

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