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1989: o ano que não terminou Destaque

Publicado em Artigos
Quinta, 14 Fevereiro 2019 13:22

Por Aloisio Villar

Existe um livro chamado “1968: o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura. Sempre achei esse título interessante e acho que cabe bem para um ano que eu vivi: 1989. De todos os anos que vivi até hoje, é o mais marcante, não somente pela vida pessoal, como pelos acontecimentos no mundo.

O ano é marcante pra mim, porque foi a primeira vez que me apaixonei, o ano do divórcio dos meus avós e o ano que fiquei reprovado na escola. Mas também me marcou por acontecimentos que não tinham a ver comigo diretamente.

O ano que, logo no seu primeiro dia, aconteceu o acidente com o barco chamado “Bateau Mouche”. Ele levava pessoas para curtirem, na baía de Guanabara, a virada do ano e afundou com muitas pessoas morrendo, entre elas a atriz Yara Amaral. Algumas semanas depois, o país parou para descobrir quem matou Odete Roitman, na novela “Vale Tudo”, sem imaginar que aquela seria apenas a primeira novela do ano.

Aconteceu outra novela, só que na vida real: a primeira eleição presidencial direta, em 29 anos. Personagens importantes de nossa história participaram da disputa como Ulysses Guimarães, Paulo Maluf, Leonel Brizola, Mário Covas... alguns folclóricos que começaram a ganhar fama, como Enéas Carneiro e outros.

No final, a eleição ficou polarizada entre o ex-sindicalista e presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, e o ex-governador de Alagoas, o “Caçador de Marajás”, Fernando Collor de Mello.

A eleição mobilizou o país, que se dividiu. Collor sempre foi o líder nas pesquisas, mas nas últimas semanas, recebendo apoio de Brizola e toda a esquerda, dos artistas e intelectuais, Lula começou a ameaçar a vitória de Collor.

Essa ameaça, como consequência, ocorreram fatos estranhos, como o presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI) Mario Amato dizendo que os empresários iriam embora do país, numa vitória do PT. Logo depois, apareceu uma mulher, no programa eleitoral de Collor, contando que o candidato do PT lhe teria engravidado e lhe pedido que abortasse.

Tem mais: uma edição manipulada do “Jornal Nacional” pró Collor, quando as campanhas já estavam proibidas, e o ato final: a prisão dos sequestradores do empresário Abílio Diniz, vestindo camisa do PT. Collor venceu, e as consequências nós sabemos.

A esquerda tomou esse golpe no Brasil - e pelo mundo também. Caiu o muro de Berlin, a União Soviética avançava fundo em suas transformações e os países do leste europeu abandonavam o comunismo. Na música, o ano foi o último de domínio do rock nacional, chegaram às rádios a lambada e a música sertaneja.

E por falar em música, cheguei onde queria: o principal motivo de eu achar que 1989 não acabou.

Naquele ano, aconteceu o maior desfile de escolas de samba que eu vi. O disco, que teve a maior vendagem de todos os tempos, trouxe sambas belíssimos, como o da campeã do ano anterior, a Vila Isabel - com o lindo refrão: “Clareou/despertou o amor/ que é fonte da vida/vamos dar as mãos e cantar/sempre de cabeça erguida”. O LP trazia outro belo samba, mesmo historicamente errado, o da Imperatriz Leopoldinense e seu famoso “Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós”.

E não com um samba bonito, mas com um samba alegre e empolgante, a União da Ilha desfilou com “Festa Profana” e o seu refrão histórico: “Eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir eu vou zoar toda cidade”. A União da Ilha nunca foi campeã do carnaval, porém com esse samba e o desfilaço que fez, teria sido campeã em todos os anos que vi carnaval, mas...

...Mas não em 1989. Não com Imperatriz e Beija-Flor daquele ano. A Imperatriz que já citei como tendo um samba belíssimo, do meu "Top 5", fez um desfile magistral, rico, luxuoso, nada parecido com a escola que foi rebaixada no ano anterior e só ficou no Grupo Especial, porque "viraram a mesa". Era a campeã de fato e de direito se mendigos não tivessem invadido a Sapucaí.

O que falar daquele desfile da Beija-Flor? Do Cristo censurado e coberto por um plástico preto, com os dizerem: “Mesmo proibido olhai por nós”. Falar o que do impacto em assistir à Beija-Flor sempre luxuosa e imponente, desfilar maltrapilha, com panos e farrapos? Ver o gênio Joãosinho Trinta, naquela manhã de terça-feira, vestido de gari?

E depois no desfile das campeãs descobrirem quase todo o Cristo, deixando só a cabeça coberta, e a transmissão ser interrompida pelos berros emocionados de Fernando Pamplona falando que aquilo era povo.

Eu, por mais que seja contraditório, costumo falar que a Imperatriz fez o melhor desfile do Carnaval 1989, e a Beija-Flor o maior carnaval da história naquele ano. Quesito por quesito, acho que a Imperatriz foi melhor, e no impacto e na emoção, a Beija-Flor. Acho que os deuses do samba concordam comigo, porque o desfile da Imperatriz foi o campeão do carnaval, e o da Beija-Flor foi o campeão da história do carnaval.

Em 1989, víamos o Brasil e o mundo esperançosos, esperando por mudanças na década de 90 que viriam. Foi o ano que pedimos que a liberdade abrisse suas asas e fomos tomados por ratos e urubus, tudo inebriado por um grande porre de felicidade.

Semana passada, o carnaval de 1989 completou 30 anos, e os sambistas comemoraram a data. Trinta anos do maior carnaval da história.

Trinta anos de 1989, o ano que não terminou.

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